Zen Pencils 211. Nikola Testa: Visões do Futuro


Foi durante o segundo ano de meus estudos que recebemos um anel de Gramme de Paris. Ele foi ligado e vários efeitos de correntes foram demonstrados.
Enquanto o professor Poeschl efetuava as demonstrações, utilizando a máquina como um motor, as escovas deram problema, soltando muitas faíscas…
…Eu observei que poderia ser possível operar o motor sem esses utensílios. Mas ele declarou que isso não era algo possível de ser feito.
O Sr. Testa pode realizar grandes feitos, mas, certamente, nunca conseguirá isso.
Isso seria o equivalente a converter uma força de tração constante, como a gravidade, em um esforço rotativo.
É um esquema de movimento perpétuo, uma ideia impossível.
Eu hesitei por um tempo, impressionado pela autoridade do professor, mas logo me convenci que eu estava certo e me lancei à tarefa com todo o fogo e a confiança sem limites da juventude.
Eu comecei inicialmente imaginando em minha mente uma máquina de corrente contínua, ligando ela e acompanhando as mudanças de fluxo das correntes no rotor.
Então, eu imaginaria um alternador e investigaria o processo acontecendo de maneira similar.
Em seguida, eu visualizaria um sistema que incluísse motores e geradores, e os operaria de várias formas. As imagens que eu vi me pareciam perfeitamente reais e tangíveis.
Todos meus próximos semestres em Gratz passaram em intensos, mas infrutíferos, esforços deste tipo…
…e eu quase cheguei a conclusão que o problema era insolúvel.
Ao atacar o problema novamente, eu quase me arrependi que a luta estivesse por acabar.
Quando eu me lancei à tarefa, não foi como as resoluções que os homens normalmente fazem.
Para mim, era um voto sagrado, uma questão de vida ou morte.
Eu sabia que estaria acabado se eu falhasse.
Agora eu sentia que a batalha estava ganha.
No fundo das profundas reentrâncias do meu cérebro estava a solução, mas eu ainda não havia conseguido lhe dar expressão externa.
Em uma tarde, que está sempre presente nas minhas lembranças, eu apreciava uma caminhava com meu amigo no parque da cidade e recitava poesias.
Uma delas era “Fausto”, de Goethe.
O sol estava se pondo e me lembrou da gloriosa passagem…

O brilho recua, findo está o dia de labutação.
E se apressa além, novos campos de vida explorando.
Ah, sem asas que me levantem do chão.
Em sua trilha a seguir, segue se elevando.

Um sonho glorioso!
Apesar de que agora as glórias se enfraquecem.
Pobre de mim! As asas que elevam a mente, nada podem.
Das asas que elevam o corpo, possa eu herdar.

Assim que eu pronunciei estas inspiradoras palavras, a ideia surgiu como um raio de luz e, em um instante, a verdade foi revelada.
Eu a desenhei com um graveto na areia e meu acompanhante a entendeu perfeitamente.
As imagens que eu vi eram perfeitamente nítidas e claras, e tinham a solidez do metal e da pedra.
Eu nem tenho como começar a descrever as minhas emoções.
Pigmalião, ao ver sua estátua tomar vida, não teria ficado tão profundamente comovido.
Milhares de segredos da natureza, com os quais eu poderia acidentalmente ter cruzado…
…eu teria dado por aquele momento, o qual eu arranquei dela, contra todas as probabilidades, e o qual ameaçava a minha própria existência.

Trecho do texto autobiográfico “Minhas Invenções“.
Arte © Gavin Aung Than
Tradução © Uninuni.com

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