Eu tenho muito tempo ocioso normalmente, nas férias o “normalmente” se torna “tempo integral”. Aí eu fico vagando por sites, lendo artigos, baixando filmes, etc. Tudo que a internet nos proporciona.

Nessa de baixar filmes inéditos e rever filmes antigos, resolvi re-assistir um filme muito interessante chamado “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (Marcelo Masagão – 1999).

O filme é um relato de como foi o século XX, porém de uma forma diferente. O filme não tem locutor, não tem depoimentos, conta histórias reais e ficticias, não tem uma história linear, em certos momentos sequer trilha sonora ele tem. Mas era isso mesmo que o o diretor queria na tentativa de fazer um paralelo de como a morte é banalizada e, por consequencia, a vida também.

Marcelo Mansagão explica como veio a iniciativa para o filme:

Durante três anos estudei o século XX exaustivamente. No início de meus estudos, cheguei perto de uma crise de esquizofrenia. Só acalmei e consolei-me quando percebi que mais esquizofrênico que eu era o próprio século. Em nenhuma outra época histórica a dualidade CRIAÇÃO/DESTRUIÇÃO se manifestou de forma tão POTENCIALIZADA. Qual aspecto deste século discutir, se os assuntos são tão intrincados, contraditórios e difíceis de se compreender?

Resolvi discutir um dos fatos que mais me chamam a atenção neste final de século.

Comecei então a visitar cemitérios e imaginar pequenos recortes biográficos da vida de pessoas que eu não conhecia. Como por exemplo, que time de futebol torcia José da Silva que durante 40 anos trabalhou numa linha de produção de Veículos da Renault…

Comecei a imaginar como esses detalhes de cada pessoa ali morta poderia conectar-se com os fatos históricos ou tendências comportamentais do século.

Pensar também como, na maioria das vezes, os pequenos personagens não só avalizam como dão consistência singular ao discurso maluco dos grandes personagens.

Apesar de falar muito da história do século, minha intenção não foi ser enciclopedista, professoral ou mesmo respeitar a linearidade temporal dos fatos.

Tomei duas decisões importantes ao desenhar meu documentário: não coloquei nenhum dado estatístico e nenhum tipo de locução no documentário.

O locutor é um personagem que geralmente ocupa o papel de ator principal na maioria dos documentários. É como se a realidade sempre necessitasse do aval da PALAVRA para ter legitimidade. Cada vez mais considero que a palavra em forma de fala é muito limitada e comunica muito pouco.

O locutor parece querer sistematizar o buraco do não compreendido.

Além do que o locutor adora vomitar dados estatísticos – e quando se fala de morte, a estatística vale pouco. Na morte, não interessa o milhar, mas a unidade-próxima. Ouvir notícias de milhares de mortos na Guerra da Bósnia, na fome africana ou no desastre de avião, parece sonorizar pouco e só acaba tendo dimensão real se o morto em alguma dessas catástrofes for meu parente ou amigo.

Resolvi também tirar todo tipo de depoimento, pois sejam de grandes ou de pequenos personagens, os depoimentos parecem estar cada vez mais fadados ao espetáculo, ao ego mentirinha, a dizer pouco sobre nossa complexa e conturbada vida psíquica.

Colocando só música, ruídos e silêncios, procurei não tapar o buraco do desconhecido, do não dito, do não que talvez seja o sim, ou, quem sabe, o talvez.

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Eu, particularmente, acho que este é um daqueles filmes que tem de ser visto por todas as pessoas. É um filme reflexivo, que faz pensar como cada ser humano acaba por ser instrumentalizado e equiparado para ser uma engrenagem na sociedade.

Existe o Soldado para ferir, o médico para tentar curar o ferido que o soldado causou e o coveiro para enterrar o ferido caso o medico não consiga salva-lo. A pessoa não importa, o que importa é a função dela.

Mas esse bla bla bla todo eu não preciso dizer… basta apenas assistirem ao filme (que, por acaso, achei completo no youtube, porém dividido em partes)

Parte 1:

para assistir ao resto do filme é só clicar nos links abaixo:

PARTE 2PARTE 3PARTE 4PARTE 5PARTE 6PARTE 7PARTE 8 (final)

Até a próxima.